Em 2025, o mercado de locação residencial virou o termômetro mais sensível do bolso brasileiro. Com juros altos e o financiamento imobiliário mais restrito, a escolha “comprar ou alugar” ficou menos filosófica e mais matemática, porque para muita gente a conta não fechava. O resultado foi uma pressão maior na demanda, o que acabou sustentando os preços e, ao mesmo tempo, aumentando a inadimplência e forçando o setor a profissionalizar gestão, cobrança e análise de risco.
A fatia de domicílios alugados no Brasil subiu de 18% para 23% entre 2016 e 2024, saltando de 12,3 milhões para 17,8 milhões de lares. É uma mudança relevante no “mapa de moradia” do país, segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, o que abriu espaço para novas plataformas, produtos de garantia e modelos de atendimento.
Em novembro, o aluguel residencial subiu 0,59% no país pelo FIpeZAP, acima do IPCA do mês (0,18%). O movimento foi disseminado: 30 das 36 cidades monitoradas registraram alta (17 das 22 capitais). São Luís liderou (2,25%), seguida por Belém (1,50%), Curitiba (1,48%), Teresina (1,22%) e Vitória (1,18%). No acumulado do ano até novembro, o índice avançou 8,70%, mais do que o IPCA (3,92%); em 12 meses, a alta foi de 9,71%, contra 4,46% da inflação.
Só que o preço é apenas metade da história. A outra metade, atende pelo nome de inadimplência. Segundo Samuel Crete, diretor comercial da Onda, o ano teve um nível “elevado” de inadimplência no setor, com taxa em torno de 3,80% e pico recente que passou do patamar histórico mais comum.
Para ele, uma inadimplência “saudável” estaria entre 1% e 1,5%: ou seja, 2025 rodou bem acima do que o mercado gostaria de chamar de normal. Na prática, o risco aumenta justamente quando o aluguel fica mais caro e a renda fica apertada: o atraso vira um dominó que derruba locatário, imobiliária e proprietário.
Esse cenário de risco acelerou uma transformação que já estava em curso: a troca das garantias tradicionais por soluções pagas e digitais. A Onda, plataforma especializada em garantias digitais, aponta que o fiador tende a concentrar mais dor de cabeça, por não ser garantia “líquida” (executável com rapidez), e que a caução de três aluguéis, comum no mercado, muitas vezes não cobre atrasos prolongados, especialmente em regiões de aluguel caro. Daí a corrida por garantias que prometem previsibilidade, cobertura e velocidade de resposta, com estrutura jurídica e processos mais padronizados.
Mas o jogo desse mercado de garantias locatícias é alto, o que levou a um movimento no tabuleiro, em uma fase de consolidação ao longo de 2025, levando empresas como o QuintoCred, do Quinto Andar, a deixar o mercado quando a inadimplência na locação subiu de 3,09% em março para 3,59% em junho. Isso acendeu um alerta num segmento jovem e que já movimenta cerca de R$ 300 milhões por ano.
Mas o mercado reagiu rápido e a Loft absorveu a carteira do QuintoCred, projetando encerrar 2025 com 650 mil contratos de fiança, reforçando uma estratégia de escala. Nos últimos dois anos, a saída ou absorção de pequenas e médias empresas se acelerou, empurradas pela sinistralidade, competição e necessidade de tecnologia.
Por outro lado, o Grupo OLX buscou parceria com a Creditas para terceirizar o “problema crédito e risco”, e a Creditas reportou crescimento de 280% em garantias locatícias entre janeiro e agosto de 2025. A lógica por trás dessas escolhas é que garantia locatícia se parece muito com concessão de crédito, exigindo análise profunda de risco, controle de fraude e capital para sustentar a operação. O acordo já foi desfeito, mas a Creditas segue oferecendo seu produto às imobiliárias.
Do lado da Onda, a leitura é que inadimplência alta deixa o modelo “insustentável” para muitos e que o setor precisa combinar digitalização com contato humano no fechamento e no acompanhamento do contrato. Gislene Vecchio, diretora financeira e cofundadora da Onda alega que recuperar aluguel atrasado pode custar mais de 20% do valor devido e a lentidão judicial amplia a fricção, pressionando por automação, integração bancária e bases regionais de dados.
A consolidação também traz um debate sobre a regulação. A ausência de um marco legal específico para garantias digitais pode abrir espaço para operadores sem lastro e governança, elevando risco sistêmico para locadores e imobiliárias. Uma discussão que deve continuar no próximo ano.
Para 2026, o roteiro depende de uma variável que o mercado imobiliário não controla: juros. Na visão de Samuel Crete, se a Selic continuar alta, a busca por locação segue firme, e com ela o avanço das garantias locatícias.
Ele descreve um mercado de rotatividade rápida em praças “fora da curva” e um ambiente em que reajustes e renovações de contrato viraram fonte de tensão para o orçamento do inquilino. Some a isso a mudança de indexadores (com contratos migrando do IGP-M para IPCA ou até referências ligadas a juros) e você tem o combustível perfeito para manter o tema inadimplência no centro da mesa.
Fonte: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/juros-altos-e-credito-restrito-leva-a-aumento-dos-alugueis-em-2025/
Segundo o Ministro das Cidades, Jader Filho, os juros do financiamento do MCMV já estão nas mínimas históricas atualmente.
Cidade concentra preços muito acima da média de outros municípios do Brasil, conforme Índice FipeZap.